A semeadura de Octavia Butler


Ao terminar a leitura de um livro, eu sempre repito um ritual. Paro em frente à estante e observo. Deixo os olhos caminharem entre uma prateleira e outra, olho as lombadas, me aproximo, me afasto e faço, intuitivamente, um caminho até a próxima leitura. Assim decido a obra que vai seguir comigo. Em tempos de pandemia, seria bastante compreensível que eu quisesse uma obra “leve”, para amenizar as preocupações que o cotidiano já proporciona.

Não foi o que eu fiz. Quando bati os olhos na capa verde da edição brasileira de “A Parábola do Semeador”, eu já sabia que não se tratava de uma leitura “leve”, mas mesmo assim decidi encarar o desafio, certa de que reflexões importantes estavam por vir. Escrita pela afro-americana Octavia Butler, a distopia foi publicada pela primeira vez em 1993, sendo o primeiro volume de uma série que a autora chamou de “Semente da Terra”.


A história contada no livro se passa entre os anos de 2024 e 2027. A jovem Lauren Olamina, que no início da obra tem 15 anos, vive com sua família em um bairro de Robledo, próximo a Los Angeles, na Califórnia (EUA). O bairro em que a família mora é cercado por grades, numa tentativa de garantir segurança diante da violência desordenada e dos saqueadores que se espalham pela cidade. Essa é a realidade caótica dos Estados Unidos da América na série escrita por Octavia.


Para se proteger, os moradores pegam em armas. Compram armamentos, fazem aulas de tiro e montam guardas em frente ao portão de entrada do bairro para evitar visitas indesejadas. Lauren ressalta que ela e os vizinhos não eram ricos, embora assim parecessem diante dos desesperados que vagavam pelas ruas. Como os outros jovens da vizinhança, Lauren se sente desestimulada e sem perspectiva de futuro. Ela é uma jovem negra, órfã de mãe, que vive com o pai, a madrasta e os irmãos mais novos.


A mãe de Lauren fez uso excessivo de drogas quando estava grávida da menina e, em razão disso, a protagonista nasceu com a síndrome da hiperempatia. A doença faz com que ela sinta tanto o prazer como a dor das pessoas ao seu redor. Lauren é uma hiperempática e essa característica vai colocá-la em risco e sofrimento em vários momentos da história. Empatia é uma palavra tão usada nos nossos dias e, a partir da síndroma da personagem, eu me questionei: como seria sentir na pele a dor do outro?


Após a morte da mãe de Lauren, o pai dela se casou com uma hispânica, Cory, com quem teve outros filhos. A família toda vive em Robledo. O pai da jovem é professor e pastor de uma igreja, onde faz as pregações nos cultos e busca levar algum conforto para os vizinhos, que vivem em estado de tensão diante de toda a situação de caos e insegurança. Lauren participa dos cultos, gosta de ver o pai pregar, mas, aos poucos, começa a questionar a religião.

Intimamente, sem comentar nada com a família, ela passa a escrever um livro chamado “Semente da Terra – O livro dos vivos”, o embrião de uma nova religião que tem a Mudança como Deus. Em um dos seus trechos, o livro “Semente da Terra” diz: “Tudo o que você toca, você muda. Tudo o que você muda, muda você. A única verdade perene é a Mudança. Deus é Mudança”.

Cansada da realidade em que vive, Lauren sonha em partir rumo ao norte, talvez para o Canadá ou o Alaska, em busca de um lugar onde o trabalho seja mais valorizado. Entre as características do cenário criado por Octavia Butler em “A Parábola do Semeador” estão o desemprego, relações de trabalho frágeis e opressivas, salários defasados, escassez de água e outros recursos naturais em razão da poluição e do aquecimento global.


Quando o bairro de Lauren é invadido por ladrões e saqueadores, que colocam fogo no que veem pela frente, ela se perde da família e vai parar nas ruas. Em pouco tempo, encontra dois vizinhos (Harry e Zahra) com quem decide partir rumo ao norte da Califórnia. Começa então uma verdadeira saga de sobrevivência dos personagens, que caminham pela estrada com destino incerto, em busca de algo que ainda não sabem direito o que é. Na estrada, eles passam por muitas pessoas “querendo chegar mais alto, até onde ainda chove todos os anos e com estudo se pode conseguir um emprego que pague em dinheiro”.


Na caminhada perigosa rumo ao norte, a protagonista começa a consolidar a ideia de criar uma comunidade religiosa (A Semente da Terra) e realiza um processo de “conversão” com seus parceiros de viagem (Harry, Zahra e outros que vão se juntando a eles). Aos poucos, alguns desses companheiros se mostram interessados pela ideia da jovem Lauren, especialmente Bankole.


Desde “Kindred”, obra publicada em 1979, Octavia já havia lançado sementes importantes no diversificado campo das escritas de fantasia e ficção científica. Ela foi, certamente, uma das precursoras do Afrofuturismo na literatura, tendo seu trabalho reconhecido por premiações como Hugo e Nebula.


A edição de “A Parábola do Semeador” lançada pela Morro Branco traz uma interessante entrevista com Octavia. A escritora conta o que a atraiu para a escrita, suas influências, as ideias sobre o futuro apresentadas na obra, as dores e temores da segregação racial. Ao escrever o livro, ela olhou para questões como as desigualdades sociais, a precarização do trabalho, racismo e os ataques ao meio ambiente.


Quais colaborações as leituras dessa obra e de sua continuação (A Parábola dos Talentos) podem proporcionar? Eu deixo a resposta com a própria autora: “Eu espero que os leitores pensem para onde estamos caminhando. Que tipo de futuro estamos criando? É esse o tipo de futuro em que você quer viver? Se não for, o que podemos fazer para criar um melhor? Individualmente e em grupos, o que podemos fazer?”.


Ao olhar para o que estamos vivendo, as reflexões propostas pela escritora não poderiam ser mais pertinentes. Fechado o livro, concluída a leitura, fica a certeza de que a intuição foi certeira e que o momento atual, marcado pela pandemia de Covid-19 e todos os seus desafios, potencializa as reflexões iniciais da obra. Que bom que a escolhi! Que bom que ela me escolheu!



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