Cirandando


Olá amigas poderosas, senhoras de si mesma e dotadas de amor próprio, desejo que estejam bem. Quando eu aceitei o convite em fazer parte deste universo lindo, vislumbrei a possibilidade de, além de compartilhar canções e minha leitura sobre elas, divulgar o trabalho de artistas mato-grossenses que vem contribuindo para arte brasileira. Então sem mais delongas, hoje eu quero compartilhar uma preciosidade, pela canção e pela compositora.


A canção Cirandando de Vera Capilé, é uma obra riquíssima em significados. Quero começar explicando o que é a “Ciranda”, esta é uma dança tipicamente brasileira que ainda não há um consenso entre a sua origem, mas há uma forte vertente de que surgiu em Pernambuco e que foi inspirada no movimento das ondas do mar, dançada por mulheres, pescadores, trabalhadores rurais, sendo considerada uma dança popular.


Há várias interpretações para a origem da palavra ciranda, mas segundo o Padre Jaime Diniz, um dos pioneiros a estudarem o assunto, vem do vocábulo espanhol zaranda, que significa instrumento de peneirar farinha. É uma dança que é faz parte do folclore brasileiro, geralmente expressada como “brincar de ciranda”, sendo as pessoas chamadas de cirandeiros e cirandeiras.


Vera Capilé é um ícone da cultura de Mato Grosso, uma mulher de fibra que possui uma história linda de vida e na música. Destaca-se como uma das precursoras do rasqueado mato-grossense e que traz em suas canções a beleza da simplicidade das coisas da vida de forma expressivamente poética. Iniciou sua carreira ainda na adolescência como locutora de rádio, mas precisou abster-se da arte por um tempo para dedicar-se a família e a sua formação profissional, retornou a sua carreira aos 45 anos de idade e teve seu trabalho reconhecido internacionalmente, tendo apresentando-se pelo “Projeto Pixinguinha” nos palcos de Paris-França.


Quando perguntei à Vera, qual foi a inspiração para esta canção, ela me respondeu: “esta ciranda nasceu de uma conversa minha com meu neto Gerson, ele tinha 6 anos. Perguntou-me se eu sabia falar inglês, eu disse que só o que eu aprendi na escola a muito tempo. Ele me disse que sabia e foi falando um monte. Então, perguntei a ele como ele aprendeu tanta coisa assim, e me respondeu: brincando vovó. Aí a imaginação correu solta, veio tudo assim como você está vendo. Pensei numa criança correndo, dançando e aprendendo o mundo.”


E a letra de Cirandando, pra mim é de uma riqueza, de uma maturidade, daquelas letras que me remetem ao pensamento de que quero batalhar para chegar nesta condição. Inicia dizendo da leveza de aprender as coisas da vida e que podemos assimilar com tudo que está ao nosso redor, com as cores pintadas ao redor, com a forma de tudo que nos cerca, com a terra no quintal.


A estrofe que considero especial é: “sinto a alma em cachoeira, onde luz do sol se aninha”. Isso pra mim é de uma maturidade tão bela, pois eu, cá experenciando a minha terceira década de vida, ainda estou buscando conhecer as águas que me banham, estou reconhecendo os rios que perpassam por dentro de mim. Sentir a alma em cachoeira é permitir que a fluidez da vida siga como tem que ser, é conhecer a si mesma e ser quem se é. E sentir tudo isso, deixando a luz do sol aninhar-se em si é ter a consciência do seu lugar, ter se posicionado na vida da forma como é possível, mas sabendo o que se faz e onde se está. E é assim que podemos ser luz e “clarear todo mundo”, como diz Vera, é conhecendo a si mesma pra poder iluminar ao redor.


“Brincando com o som que alegra, meu brincar de cirandeira, brincando conheço a vida e nela me reconheço”. Transformando essa linguagem bela para nossa realidade, eu entendo que tudo que nós vivemos é uma possibilidade de aprender, ouvir o som da voz de quem nos ama, ouvir a voz da intuição, ouvir a voz do coração, ouvir verdadeiramente o que a outra pessoa nos diz, ouvir é sempre uma boa pedida. Brincar de cirandeira é um estilo de vida que ela traz na música, então isso me remete a nossa vida como um todo e também a própria vida. E é vivendo que podemos reconhecer a vida e nela nos reconhecer.


Poderia ficar horas escrevendo sobre as reflexões que cada estrofe dessa canção me traz, mas pontuei aqui essas frases que me preenchem o peito de alegria, e a música está aí, posta e pronta para as nossas interpretações, pois a canção é de quem escuta e não só de quem faz.


Então passarinhas, arrastem a cadeira, chamem as crianças e todo mundo que estiver em casa, deem as mãos, façam um circulo e se permitam “brincar de ciranda”, tenho certeza que será uma experiência que trará alegria para o seu lar.


Desejo que essa canção flua neste nosso universo feminino e nos provoque belos reconhecimentos.




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