Covid-19 em Madagascar


Andar pelas ruas de Ambovombe, Madagascar é como entrar num filme de época que se passa na idade média e as pessoas usam roupas de 2020, chinelos e celulares. Há um mês o presidente fez um pronunciamento a respeito da chegada do corona vírus em Madagascar através de três pessoas que estavam viajando para a Europa e chegaram aqui contaminados. Nesse primeiro pronunciamento ele já deu orientações em relação ao isolamento social, suspendeu as atividades de clubes de festa, bares, escolas e reuniões com mais de 50 pessoas. Orientou sobre a higienização das mãos com água e sabão, do uso do álcool gel e das máscaras. Bom, até aí tudo tranquilo. Foram medidas preventivas pois os casos de teste positivo estavam apenas na capital, Antananarivo, mesmo assim as ordens eram para todo o país, já que não há testes disponíveis em todas as regiões. Aqui na


Fraternidade sem Fronteiras, no sul da ilha, as duas médicas brasileiras que chegaram uma semana antes do pronunciamento e o médico que chegou na época do pronunciamento ficaram 15 dias usando máscaras e luvas, estando o médico em total isolamento no quarto dele sem contato com o público, só o víamos de longe na hora do almoço. Ele não apresentava sintomas, tinha a temperatura aferida todos os dias e foi testado negativamente pois fomos visitados por funcionários publicos da saúde para garantir a segurança da população. Passados os 15 dias, os médicos estavam todos trabalhando na clínica da FSF em atendimento aos necessitados que vem de diversas regiões de Ambovombe. Dois dias antes do fechamento das fronteiras e dos vôos internacionais as duas médicas até tentaram voltar para o Brasil, mas não conseguiram vôo disponível. Sorte a nossa que ficamos com cinco médicos em campo diante da assustadora pandemia. Madagascar não é um país em desenvolvimento, é um país pobre. São raros os equipamentos médicos como os respiradores tão necessários nesse momento, mas graças aos padrinhos da FSF somos privilegiados e temos dois equipamentos em perfeito estado que serão emprestados ao governo em caso de necessidade, já até doamos algumas máscaras N95 para as equipes médicas que lidam diretamente com os confinados. Atualmente o número de pessoas em quarentena aumentou para 314 na capital e em Fort Douphin onde um casal de franceses com um bebê veio para um casamento e não apresentavam sintomas mas foram testados positivamente e já haviam tido contato com inúmeras pessoas, muitas foram testadas e também fizeram quarentena. Após os primeiros quinze dias o prazo de estado de emergência foi oficialmente estendido e o governo comprou muitos testes rápidos e intensificou a fiscalização nas fronteiras regionais. O que achei mais interessante foi o governo oferecer auxílio financeiro aos vendedores de rua, prostitutas e mendigos, além de perdoar as dívidas de pagamento de água e energia cancelando os cortes até dezembro.


Tem até caminhão do governo distribuindo água para a população na rua. No nosso trabalho houve uma reorganização para minimizar o risco de contaminação. Buscando seguir as orientações iniciamos a distribuição semanal de alimentos para serem preparados em casa pelas familias de cerca de 1200 pessoas que vinham se alimentar diariamente, evitando aglomerações. Os projetos educacionais e os workshops tiveram uma pausa nos primeiros dias e depois uma adequação de atividades. Apenas algumas atividades e projetos continuaram normalmente por não precisarem de um número grande de pessoas e facilitar o distanciamento. Foram e estão sendo dias de planejamento, de avaliação e de contenção de gastos em todos os setores. A maioria dos voluntários foi dispensado do trabalho ou está trabalhando apenas uma vez na semana. Além das atividades do trabalho terem se adequado a atual condição, também em casa tivemos mudanças na rotina familiar.


Apesar de todas as orientações governamentais é preciso dizer que na prática a realidade é bem diferente. As pessoas não estão conseguindo fazer isolamento social, pelo menos na cidade onde moramos, Ambovombe, onde algumas empresas não estão funcionando, mas o comércio local continua normalmente. Até percebemos uma diminuição, no entanto ainda é grande a circulação de pessoas diariamente nas ruas sem máscaras ou qualquer mudança na rotina. Exceto pelo fato de que as pessoas pulam assustadas há dois metros de distância de nós estrangeiros e dizem: "vazaha, corona vírus!" Agora sabemos como os animais do zoológico se sentem porque quando os malgaxe olham pra gente, nos observam e falam uns com os outros nos apontando o dedo como se estivessem mesmo diante de um animal exótico de um país desconhecido. Mas não nos abalamos, para nós tudo é aprendizado e continuamos com a nossa missão de auxiliar as pessoas desse lugar que parece estar esquecido no tempo. A maioria das pessoas não tem renda fixa. Eles ganham o pão de cada dia, ou o arroz de cada dia no próprio dia e pronto. Se tiver come, se não tiver, não come. A organização do governo faz de tudo pra minimizar as dificuldades das pessoas, mas de fato a consciência geral ainda impede as pessoas de serem organizadas por si mesmas. É perceptível o quanto a educação pode fazer por um povo, uma nação quando temos desafios tão drásticos. Aqui para a maioria da população parece que só há duas opções: morrer de corona vírus ou de fome. No entanto seguimos rezando para que o vírus não chegue até Ambovombe, agradecemos as pessoas das cidades onde há contaminação por serem disciplinados o máximo que podem nas instruções de segurança pois sabemos que a situação no interior do país é de escassez ainda maior e por consequência de grande fragilidade. Cabe a cada um de nós fazer o que é possível e também pensar naqueles que acham que não é possível. Levar um pouco de esperança onde há tão pouco faz dessa missão ainda mais necessária. Queremos estar preparados e como instituição feita de pessoas, precisamos da cooperação, da união de esforços de muitos corações para estender algum auxílio aos irmãos que não tem sequer um espaço adequado de convivência, uma casa para poder seguir a orientação de #ficaemcasa ou a condição de se alimentar. É enorme o número de pessoas que simplesmente não tem o que comer hoje e que dorme no chão numa cabana de palha de 4m2 com 16 pessoas. Que o privilégio de poder oferecer um pouco mais seja de todos nós. Você pode fazer a sua parte acessando o site www.fraternidadesemftonteiras.org.br e escolhendo o projeto para o qual quer fazer uma doação. Na África ou no Brasil, a humanidade precisa de você.





















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