Desconstrução da dor do Parto



Quando você e eu éramos meninas, ouvimos da mãe, das tias, das primas mais velhas, das vizinhas e amigas da mãe histórias sobre como os bebês nasciam e ficávamos como? Horrorizadas? Intrigadas? Assustadas? Muitas das mulheres da nossa geração ouviram histórias de parto terríveis de experiências dolorosas, sofridas, de mulheres que morreram ou quase morreram no parto, de violências sofridas e até de cirurgias que salvaram vidas.


Nossa mente foi pouco a pouco preenchida ao longo dos anos mais sensíveis de nossa formação como mulheres por relatos e estórias vividas e aumentadas com muita dor e sofrimento. Na aula sobre a história do parto você vai conhecer mais a respeito de tudo que contribuiu para que essa nossa vivência social fosse impregnada pelo medo. Na adolescência tivemos contato talvez com uma ou duas aulas sobre reprodução humana, cheia de nomes científicos estranhos, hormônios, órgãos, vergonha, timidez e pudor que os colegas aí nosso redor aumentaram por rirem de nervoso, de excitação e curiosidade que não foi saciada educativamente.


Talvez alguma de vocês teve a oportunidade de assistir uma palestra com uma sexóloga e tirar algumas dúvidas, talvez seus pais tenham te chamado para conversar meio desconfortáveis por não sabem bem como tratar desse assunto com naturalidade e você sentiu a tensão na voz e o peso da fala carregada de culpa e responsabilidade. Na maioria dos casos as mulheres, ainda meninas, moças, aprenderam umas com as outras por conversas cheias de achismos e controvérsias sobre o funcionamento de seu próprio corpo e do que esperar quando tivesse que parir seu próprio bebê.


Depois, já como mulher tendo suas experiências de vida, lendo revistas, artigos e matérias na televisão, você aprendeu um pouco mais sobre a ciência do funcionamento natural do seu corpo e do quanto as contrações são inevitavelmente dolorosas e necessárias.

Talvez ainda você tenha travado uma batalha interior para compreender porque Eva pecou e por causa dela, a primeira mulher que deveria ser a Mãe Sagrada de todas as mães, deixou esse legado de dor e sofrimento tão pesado a todas nós. Você passou anos da sua vida desejando não menstruar por causa das cólicas e do desconforto, que inconveniente ser mulher numa sociedade que cobra das mulheres que sejam comportadas e caladas, produtivas e submissas, fortes e recatadas... Ah, tantas crenças limitantes, sim porque nada tão limitante quanto elas para acorrentar seu poder borbulhante criativo e cíclico!

Deve ter dado muito trabalho chegar até aqui e acessar a si mesma com uma outra leitura do que é ser mulher, não é mesmo?

A partir de agora, o trabalho é de desconstrução. Não de destruição, mas de pouco a pouco desconstruir as crenças que limitam, que bloqueiam, que prendem sua mente como as algemas do sofrimento para se libertar, se curar, se transformar e voar rumo a novas construções, novas possibilidades de caminho em busca de um autoconhecimento que te empodera cada vez mais.


Para essa desconstrução primeiro é necessário que você identifique individualmente quais são as suas crenças limitantes. Ao tomar consciência delas você as expõe à luz e as reconhece para então alquimicamente poder transformar cada uma delas em autoconhecimento que liberta e empodera. Estou falando especificamente das crenças sobre a dor, não só a dor do parto, mas todas as dores que como mulher você aprendeu que são parte da sua condição nesse corpo de mulher.

Como forma de te auxiliar nessa descoberta de suas crenças, vou deixar para você uma lista de perguntas guias. Elas farão o trabalho da escavadeira de crenças que desenterradas da sua memória e imaginário trarão à tona o peso que você carrega e que não é seu, mas foi construído em você pela sociedade patriarcal, pela cultura machista, pela religião ou pelas histórias colecionadas desde a infância, pela voz de homens e mulheres com quem você conviveu especialmente os mais próximos, pai, mãe e familiares.

Pegue uma ou mais folhas de papel e responda a essas perguntas uma a uma, sem pressa, sem ansiedade, mesmo que essas crenças desenterradas te causem desconforto emocional. É natural que você entre em contato com algumas dores nesse momento, mas isso faz parte do processo de limpeza e transformação. Se estiver demasiada, dê a si mesma um tempo, mas não desista.


Assim que possível retorne a sua tarefa e escreva todas as respostas, talvez outras perguntas apareçam durante o processo, você pode escrevê-las em outro papel e reservar. Quando tiver escrito todas as respostas, leia cada uma em voz alta para si mesma reconhecendo que elas fazem parte de você no momento e se despeça delas. Diga a elas que você é grata porque elas te auxiliaram a chegar até aqui, que tiveram sua importância e que antes chega um novo tempo de despertar. Você não precisa mais delas, elas podem ir, podem ser transformadas pelo fogo.

Arrume um recipiente, não de plástico, pode ser uma tigela, uma panela, uma forma, coloque nesse recipiente as folhas de papel com as respostas e com uma vela acesa, um isqueiro ou outro instrumento, ateie fofo ao papel e deixe queimar até o final. Observe as chamas e se despeça mentalmente daquelas crenças. Elas não fazem mais padre de você. Ao entregá-las ao fofo você deixa esse espaço livre para cultivar um novo conhecimento.

Se quiser, você pode colocar uma música para ouvir nesse momento. Deixe os sentimentos se aflorarem e deixe-os passar.

Com essa força renovada você está pronta para começar seus estudos de preparação para um parto feliz e encontrar suas próprias convicções e potências a partir do conhecimento científico e do fortalecimento espiritual que te renovam.

Me contem depois como foi esse exercício para vocês.

Boa descontrução!



54 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Ritmus