Mãe de segunda viagem


Amigas leitoras, quando engravidei pela segundas vez eu morava com meu companheiro e minha filha de 1 ano e meio em uma aldeia indígena no Xingú.


Foi uma gravidez desejada que nos trouxe grande alegria, mas também algumas incertezas e inseguranças. Eu era mãe há apenas 1 ano e meio e me sentia ainda saindo do puerpério quando recebi o chamado da maternidade pela segunda vez.


Foi um chamado muito forte e misterioso, tão misterioso que eu não pude deixar de atender e tive nessa segunda gestação experiências realmente condizentes com todo esse mistério prenunciado assim como a chegada desse segundo filho. Eu sabia que era um menino desde a concepção. A própria concepção foi consciente e durante os três primeiros meses passei pelo medo de um aborto por conta de um sangramento estranho. Depois de fazer uma constelação familiar consegui superar esse medo ao compreender a serviço de quê ele estava lá.


Minha gravidez seguiu com segurança, de forma saudável e feliz até que chegou o grande dia. Nosso bebê nasceu de parto natural, empelicado no pico da lua cheia, à meia noite e dentro da nossa oca. Uma das vivências mais lindas e marcantes da minha vida foi receber nosso Waidê da forma como foi. Dali em diante estávamos começando uma nova vida em muitos sentidos.

Ser mãe pela segunda vez me parecia muito desafiador devido às circunstâncias, a mudança para a cidade, uma grande capital, distante dos meus familiares e amigos, um recomeço de vida, de trabalho, com tantas novidades eu não sabia bem o que esperar. Mas isso não me paralisou, eu fui com a cara e a coragem que Deus me deu e minha mãe e meu pai me transmitiram para viver essa nova vida. Eu só não estava contando com o bendito puerpério e uma filha de dois anos que ainda dependia tanto de mim. Você pode imaginar o que era fazer um desmame gentil e progressivo no final da gestação e depois do segundo parto continuar com o desfralde gradativo e amoroso? Havia momentos em que eu pensava: onde eu fui amarrar meu burrinho?

Claro que eu tive que dar umas surtadas de vez em quando e claro que meu companheiro teve que exercitar sua compreensão e paciência além de se graduar na paternidade aprendendo com a prática também. Não se engane, eu sou daquelas bem perfeccionistas e isso me levou a muito sofrimento, mas, como já contei aqui no artigo anterior, eu decidi viver esse segundo puerpério de forma diferente do primeiro. Ainda que na primeira vez eu tivesse algum apoio, era tudo muito novo e eu ainda estava lidando com a descoberta da mãe que eu idealizava ser e a mãe que eu dava conta de ser. Mas na segunda vez a coisa ficou ainda mais aparente. As sombras do puerpério me pegaram de jeito e eu me via mergulhada numa solidão profunda, sentindo culpa em cima de culpa.

Gente, era culpa por não dar conta de tudo, quando eu tinha idealizado que tinha que dar! Culpa por achar que não era uma boa mãe por não conseguir estar tão presente na vida da pequena filha que precisava tanto de mim... Ela exigia minha atenção, mas com um amor incondicional, ora me olhava e compreendia, ora sentia saudades das 24 horas de dedicação exclusiva. Ora ela tinha que lidar com o ciúme do maninho, ora com o amor imenso que sente por ele e aquele dom maternal que já começava a nascer nela. E eu ali, no meio dos dois, me sentindo péssima por não dar conta.

Esse negócio de ser mãe é uma viagem. É uma viagem sem volta, porque a gente nunca mais vai ser a mesma e nunca mais vai ter a vida que tinha antes. Mas quer saber de uma coisa, foi a melhor escolha que eu fiz na vida. Eu precisei aprender a olhar as coisas por outros ângulos para perceber que a maternidade não tinha que ser aquele peso imenso que eu carregava nas costas. E aliás, as dores nas costas surgiram para me mostrar exatamente o caminho que eu estava trilhando ao pensar assim. Até hoje me dá um nó na garganta ao lembrar daqueles dias sombrios, daquelas madrugadas que pareciam que nunca iam acabar e daquela culpa que eu sentia, das saudades da vida que eu deixei para trás e da mulher que eu era.

Passar pelo portal do nascimento não tinha sido suficiente para que eu percebesse que minha vida não era mais só minha, mas que ainda assim é meu maior presente. Nasci mãe duas vezes e depois ainda mais uma bem perto da segunda vez, e ainda assim não tinha me livrado da tal da culpa. Será que ela é inevitável?

Amiga leitora, aqui eu te conto uma nova versão dessa história. A versão que começa com o tal do novo olhar para a maternidade. A gente só pode ser quem a gente é, essa busca pela maternidade perfeita foi perder o sentido quando percebi depois de uma boa terapia, de onde veio essa exigência de perfeição. Minha criança ferida chorava amargamente pela máscara da filha boazinha que eu tinha escolhido. Quando o poeta Caetano Veloso musicou: "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", ele descreveu as mulheres marcadas pela sociedade patriarcal com suas exigências de forma muito verdadeira. Vou te contar uma coisa: a primeira a julgar a mãe imperfeita e a exigir dela o absurdo, sou eu mesma. Ao descobrir que sou meu próprio carrasco eu tinha que tomar uma decisão. Que cárcere pode prender uma consciência leve?

Me liberei da prisão do medo de não dar conta, de ser a mãe perfeita e de colocar o mundo nas minhas costas e comecei a ter mais amor por mim. Se hoje eu posso dar algumas dicas a você que está nessa luta diária da mãe de segunda, terceira ou seja lá quantas viagens for, as dicas são essas:

1) Cuide de si mesma primeiro. Coloque a máscara de oxigênio em você e depois atenda outras pessoas. Ninguém vai colocar a máscara em você enquanto você se sufoca tentando salvar seus filhos.


2) Sua vida de antes da maternidade não volta mais, mas sua vida de mãe pode ser muito mais divertida e você não precisa se esquecer de tudo que gostava de fazer. Não se anule! Busque ter momentos na sua rotina em que você vai fazer algo só por você. As artes me auxiliam muito, pintar, escrever, fazer crochê... As pessoas não entendem como é que eu tenho tempo pra fazer isso tudo, mas eu vou te contar. A gente arruma tempo quando a gente se organiza. É uma questão de prioridade? Sim, eu sei, a prioridade fica questionável quando se tem um bebê, ainda mais quando já se tem filhos antes desse bebê. Mas a gente dá um jeito pela nossa sanidade mental. Chega de exaustão materna, já não basta a privação do sono, a mudança hormonal que afeta absolutamente tudo e a culpa que a gente carrega por estar inserida num contexto familiar, social e temporal tão exigente com as mães?


3) Aprenda a distribuir e compartilhar tarefas. A mulher tarefeira que existe em você precisa conhecer o lugar dela. O dia não é nem muito curto nem muito longo. Tudo é uma questão de perspectiva. O pai, a avó, a irmã, a sogra, a cunhada, o irmão, as amigas e amigos estão todos lá por você, mas se você não disser a eles do que precisa eles não vão saber como auxiliar. Já dizia meu pai: ninguém sabe o que o calado quer.


4) Tenha uma rede de apoio e se não tiver pague o preço! Quanto custa sua sanidade mental e emocional? Você gasta um absurdo com o quarto perfeito do bebê perfeito, mas se esquece que os desafios da maternidade vão bater na sua cara perfeita e te dizer: acorda! Há coisas muito mais importantes que tornam sua vida prática muito mais fácil e isso é libertador! Se precisar de auxílio profissional, procure e terá. Ter uma rede profissional de puerpério é mais importante que aquele berço americano lindo que você quase não usou.


5) O equilíbrio hormonal no puerpério depende do seu auxílio. Construa sua rotina e introduza nela hábitos saudáveis. Comer bem parece impossível, mas é muito importante para que seu corpo funcione. Beba muita água! Atividades físicas liberam endorfinas e elas te trazem bem estar e relaxamento, além de te auxiliar a regular o sono do seu bebê. Se você estiver com a adrenalina alta, seu bebê vai receber isso no leite e até no contato com a sua pele. Você não vai gostar desse resultado.


6) Tome sol, você e suas crias também. O sol aumenta a imunidade através da produção de vitamina D e regula o sono. Passear ao ar livre de vez em quando não é pecado! Se o vento não estiver muito frio, é até salutar para vocês.


7) Saia sozinha nem que seja por 10 minutos. Vai dar uma volta na quadra e deixe outra pessoa cuidando das crianças. Você merece esse tempo para se descobrir nessa nova identidade.


8) Se organize para ter um tempo a sós com seu filho ou filha mais velha e se tiver mais de dois, tenha um tempo especial com cada um. As crianças precisam de tempos de qualidade com sua presença só para elas nem que seja por 15 minutos todos os dias.


9) Sexo auxilia na liberação dos hormônios que você precisa para equilíbrio no puerpério. Se você não está se sentindo disposta e a libido está baixa, não se culpe, é natural. Mas não se feche para a possibilidade. Busque alternativas que te estimulem como ginástica íntima, um banho morno demorado com massagem e toque pelo corpo todo. Além disso há sempre a possibilidade de contar com um suplemento através de chás, florais, uma comida afrodisíaca, uma tintura, uma homeopatia... Eu sou fã de alternativas naturais.


10) Tenha paciência consigo mesma. A maternidade é para sempre, então não se acomode com as dificuldades que está vivendo agora. A cada fase a gente aprende coisas novas e se abre para novas possibilidades. Essa é a beleza e a dádiva de ter aceito o desafio de ser mãe.


As transformações são inevitáveis e bem vindas.

Não se iluda, a vida é dinâmica!

Não é por acaso que somos cíclicas.



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