Nascer, um olhar sistêmico sobre a vida


Quando uma mulher está grávida há todo um movimento em torno dela, sua família, seus amigos, seu trabalho, toda uma rede de pessoas que sente uma energia diferente, uma graça, uma leveza, uma alegria que é transportada através do ventre dessa mulher.


Os familiares mais próximos como os avós da criança, por exemplo, ou um tio que normalmente era mais durão, fica mais gentil, mais acolhedor.


Mesmo sentindo alguns desconfortos no corpo, a própria gestante percebe que a partir da concepção algo na sua vida trouxe novas possibilidades. As Constelações Familiares Sistêmicas trazem um olhar para o nascimento desde a concepção que causa algumas reflexões nas pessoas.


O fato de que cada ser tem seu lugar no mundo e em sua família desde o momento em que é concebido, por direito, já é algo importante a se considerar. O campo morfogenético da mãe e por consequência de todo seu sistema familiar está marcado pela presença desse novo ser mesmo antes da existência completa dele ou dela através de seu nascimento.


Mães e pais que tiveram uma concepção consciente relatam que sentiam, percebiam e até sonharam com seus filhos antes mesmo da concepção. Alguns relatos muito antigos na história da humanidade contam do anúncio dos grandes avatares antes da gestação acontecer de fato.


Essa consciência da manifestação espiritual no corpo por parte dos genitores e até mesmo de alguns raros seres humanos já se manifesta atualmente confirmando as observações e constatações de Bert Hellinger através dos exemplos vivos entre nós. A australiana Rebecca Sharrock tem uma síndrome raríssima conhecida como Memória Autobiográfica Altamente Superior. Em entrevista a Revista Crescer em 14/09/2017 ela usa sua experiência para dar dicas a pais de crianças pequenas.


Aqui quero trazer o ato de nascer como o primeiro sucesso que temos na vida, de acordo com Bert Hellinger, sendo o nascer algo ativo que parte de nossas forças pessoais. Como doula, estudo os nascimentos há 7 anos e tenho visto a olhos nus esse mistério da vida acontecendo assim como senti pela minha própria vivência com o nascimento natural de meus três filhos.


A ciência humana evidencia esse impulso ativo do bebê para encontrar sucesso em seu próprio vir ao mundo através da liberação hormonal que seu corpo sinaliza ao corpo da mãe que o gera desencadeando a cascata de hormônios no corpo dela e dando início ao trabalho de parto.


Ao nascer há também um impulso autônomo de respirar por seu próprio esforço ainda que esteja ligado ao cordão umbilical por alguns minutos recebendo oxigênio e nutrientes. Daí a importância de olharmos para esse momento do nascimento com um cuidado e paciência, respeitando o tempo de cada bebê ao se adaptar ao meio externo e não aquoso, líquido em que estava antes do nascimento.


Dar a esse bebê o tempo adequado e específico para cada um, de respirar e de estabilizar essa respiração sem a necessidade de cortar o cordão umbilical repentina e abruptamente é um ato de respeito ao nascimento e de reconhecimento desse impulso autônomo.


Nascer é a conquista de um novo lugar, novo e diferente, estando agora dentro de seu sistema familiar numa determinada ordem de nascimento em relação aos que vieram antes dele e também na condição de se sentir pertencente a esse sistema através do acolhimento e recepção da mãe, do pai, de irmãos e irmãs que vieram antes e inclusive daqueles que não permaneceram vivos e também pertencem e ocupam seu próprio lugar. A ordem de nascimento revela em cada um características específicas que torna seu script de vida adequado para aprender com os desafios que lhe cabem, que cabe a cada um de nós como filhos.


Aos pais cabe a dádiva de dar a vida, o que há de mais importante e que só poderá ser pago por quem a recebe levando essa vida adiante e fazendo dela o melhor que puder. Ao gerar nova vida podemos passar essa vida adiante e ser abençoados com a mesma dádiva dada um dia a nossos pais. No equilíbrio entre dar e receber ainda nos é necessário aprender a tomar a vida.


Nascer é tomar a vida todos os dias, a cada novo amanhecer com as oportunidades que nos são ofertadas e aquelas que podemos buscar com nosso próprio esforço. Esse primeiro impulso autônomo e ativo de tomar a vida, esse primeiro sucesso adquirido de nascer pode registrar em nós as informações que refletem em nossos comportamentos diante da vida depois de adultos.


Uma criança que teve algum impedimento para tomar a vida ao nascer, pode apresentar dificuldades para reconhecer esse impulso em si ao se separar com os desafios de formar uma família, prosperar no seu desenvolvimento acadêmico, nas relações interpessoais e no trabalho. O simples e poderoso ato de nascer é tão importante que pode influenciar todos os aspectos de nossas vidas. Cabe a cada um de nós ao se conscientizar de quem somos e de que maneira viemos a esse mundo, aprender a manter esse impulso de tomar a vida todos os dias ativamente e dela fazer o que melhor puder ser feito de serviço a sua própria existência e aos outros com quem compartilhamos a condição mais bela e sublime, a vida.


Em honra aqueles que vieram antes de nós e tornaram possível nossa existência com tudo que custou a eles e tudo que custa a cada um de nós.


Que a força da vida seja tomada por você ao ler esse texto se assim você desejar. E que essa força se renove em seu ser por seu próprio querer, com toda a abundante riqueza que a vida é.



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