Parto sem dor, é possível.


Queridas leitoras, hoje quero compartilhar com vocês um relato do meu terceiro parto, quando recebemos em nossa família o João Lucas. Pode servir de inspiração e encorajamento para alguém.

Este relato deve iniciar bem antes do parto. Houve toda uma preparação que merece ser reconhecida e por isso vou considerá-la a começar pela descoberta da gravidez que não estava planejada. O João Lucas tem uma irmã mais velha de 4 anos que nasceu de parto domiciliar em Alta Floresta -MT e um irmão que completou 2 anos poucos dias depois do nascimento dele e nasceu de parto domiciliar também numa aldeia indígena. Depois desses dois filhos eu realmente não pensava em ter mais um por enquanto. Coloquei um DIU um mês após o nascimento do segundo filho e exatamente um ano e um mês depois, chegaram os sintomas de uma terceira gestação. Depois de passados os três primeiros meses de adaptação à novidade eu comecei a me sentir melhor e a realmente me dedicar a uma preparação para essa nova etapa de nossas vidas. Tive dois partos lindos, me senti respeitada e bem cuidada em ambos e tive boas equipes de parto acompanhando. Nosso terceiro filho merece a mesma condição, portanto mesmo que nosso foco financeiramente fosse outro naquele momento, mantive o objetivo e a esperança e começamos eu e meu esposo a trabalhar por mais esse sonho a ser realizado. O nascimento do João Lucas haveria de ser domiciliar no sítio onde moramos, a 10 km da cidade mais próxima, Sidrolândia – MS.

A Preparação

O sonho de um parto domiciliar planejado teria agora uma novidade a mais. Eu estava empenhada em conhecer o que é parir sem medo, sem dor, com prazer e naturalidade. Então comecei um grande empreendimento que eu já havia começado a estudar antes, mas não tinha as condições necessárias para dar continuidade porque vivia no Xingu, sem internet ou qualquer tipo de acesso às facilidades da vida urbana. Li o livro “Parto sem dor, você também pode” da Maria do Sol. Comecei a meditar, a rever os vídeos do treinamento que ela fez com um grupo de mulheres pela internet durante um curso, fazia meus exercícios de preparação do períneo além de todas as coisas normais de um pré-natal como boa hidratação, alimentação de qualidade, alongamentos e consultas médicas. Não fiz tudo isso com absoluta disciplina, mas me esforcei o quanto pude. Agora eu tinha uma casa grande num sítio pra cuidar com todos os afazeres domésticos mais dois filhos pequenos e criativos para educar. Meu tempo era limitado e minha organização nem sempre era suficiente para dar conta de tudo, além de estar voltando ao trabalho como doula aos poucos. Foi então que chegou até mim um livro que mudou tudo. O nome é bem parecido com o da Maria do Sol, embora tenha sido escrito décadas antes pelo De. Pierre Vellay. “Parto sem dor” – o titulo me chamou a atenção. Consegui um emprestado de uma amiga doula que teve sua filha num parto domiciliar planejado e sem dor. Ela não havia lido o livro, mas eu sentia que ali havia alguma coisa que eu ainda não conhecia e que faria tudo mudar. Ao ler fiquei muito empolgada e me disciplinei a fazer os exercícios de respiração e relaxamento indicados com muita atenção. Não foi difícil, ao contrário do que eu imaginava e as explicações e contextualização do livro fizeram crescer em mim uma crença verdadeira que desconstruiu minha antiga maneira de ver o parto e a dor. Eu estava me abrindo para uma nova possibilidade concreta, real e que me dava esperança de poder auxiliar as mulheres com esse novo olhar para a vida. Com o avançar dos dias eu senti que precisava de um trabalho de consciência corporal mais intenso do que o indicado no livro. Então chamei a Prema Renata Bastos, a mesma que me emprestou o livro, para me preparar como doulanda, reconhecendo o trabalho maravilhoso que ela tem por sua sensibilidade, conexão verdadeira com as mulheres que acompanha e sua bagagem de conhecimento como instrutora de Yoga e doula. Daí começamos uma nova etapa de preparação com tudo que eu já fazia antes e mais o trabalho psicológico aliado ao corporal. No final da gestação intensifiquei meu treinamento e tive sempre o apoio do meu companheiro. Organizamos o parto domiciliar planejado, contratamos a parteira Lorena Moreira Pupim que já tinha me acompanhado no primeiro parto e é uma grande amiga, pessoa com a competência e a minha confiança. Montamos a rede de apoio: minha mãe, meu padrasto, nossos vizinhos e amigos mais próximos. A parte material dos preparativos foi a última com que me importei. Tive o apoio da minha mãe, minha irmã e amigas para montar o enxoval. Ganhamos muitas coisas e não precisamos gastar muito, o que facilitou o recurso para a equipe de parto. A parteira chegou a nossa casa mais de 20 dias antes da DPP que era 22 de fevereiro.

Chegou a DPP

Depois da data prevista para o parto, ou seja, a data que supostamente o bebê completa as 40 semanas de gestação, a pressão dos parentes e amigos começa e se eu não tivesse a calma e a preparação necessária provavelmente teria ficado muito ansiosa, o que não ajudaria em nada na verdade. Eu precisava de serenidade, respeito e acolhimento para que meu corpo tivesse as condições favoráveis para o trabalho de parto. Há umas duas semanas eu já sentia as contrações de treinamento e cheguei a entrar em pródromus duas vezes. Mantive o foco, meditei, visualizei, fiz relaxamento, tomei chá de framboeseira, introduzi canela na alimentação, tomei o chá indicado pela Naoli Vinaver que a Lorena preparou, tomei muito suco verde pra aumentar plaquetas e ferro e afastar a gripe que pegou meus filhos e minha mãe. Até voltei a comer carne vermelha para não ter risco de anemia. Depois foi só esperar com paciência que no dia que ele escolhesse, ele viria. Houve até um ritual simbólico de despedida dos medos e anseios que eu, meu esposo João Gilberto e nossos filhos fizemos guiados pela parteira. Meu altar estava preparado, minha alma sempre em preparação. Aí começou outro pródromus.

Chegou o grande dia

Foi na madrugada do dia 28 de fevereiro de 2019 que eu acordei com dor de barriga. Fui o banheiro e quando tentei me deitar pra dormir novamente não consegui mais. As contrações vinham acompanhadas de um desconforto acentuado na lombar e no pé da barriga. Aquela cólica já era conhecida, mas não me alarmei e permaneci sentada na cama só respirando a cada contração. Até que uma hora e meia depois eu pedi ao meu esposo o celular pra começar a marcar a frequência das contrações que já achava bem ritmadas. Assim fui marcando e respirando até clarear o dia quando resolvi enviar uma mensagem no grupo do Whats que criei para a equipe de parto do João. Discretamente fui para o banheiro e entrei naquela ducha quente que é tão terapêutica nessas horas. Depois de um dos banhos mais demorados desde que me tornei mãe e de me emocionar muito sentindo a alegria da certeza de que estava chegando a hora de ver meu bebê nos meus braços, me vesti e tomei o café da manhã preparado com carinho pela minha amada mãe, Débora, com a família toda reunida enquanto me agachava de 3 em 3 minutos respirando e vocalizando. Percebi a reação de divertimento dos meus filhos ao reparar que algo diferente estava acontecendo com a mamãe. Depois do café eu fui me sentar na sala e percebi que se não começasse a colocar em prática meu treinamento de respiração e relaxamento, visualização e meditação, logo eu estaria vocalizando alto de dor como foi nos dois partos anteriores. Foi aí que eu pude comprovar que o método indicado no livro realmente funciona. Nunca me senti tão relaxada especialmente sob circunstância tão inesperada. Durante as contrações eu acelerava a respiração tornando-a superficial e soltando o ar pela boca enquanto conscientemente buscava reconhecer os músculos que precisava relaxar mesmo sentindo o útero apertar e a lombar reclamar a abertura da pelve. Percebi que estava dilatando aos poucos em cada contração e nos intervalos eu chegava a um estado de relaxamento tão grande que quase, quase cochilava. Meu esposo foi levar as crianças para brincar na casa da vizinha para que eu pudesse ter o silêncio e a concentração necessários. A Lorena teve tempo suficiente para auscultar o bebê e fazer um toque (o primeiro durante toda a gestação e o mais suave da minha vida). Eu já estava com 7 cm de dilatação! Obaaaaa! Comemorei, mas consciente de que o bebê estava alto e o colo ainda estava um pouco grosso. Foi aí que me lembrei que trabalho de parto não é só relaxamento. Depois que a doula Prema Renata Bastos e a fotógrafa Franciella Cavalheri chegaram, fiquei mais algum tempo naquele relaxamento e em seguida resolvi me movimentar. Eu estava tão integrada àquela cadeira de fio que minha pressão ficou um pouco mais baixa que o normal. A Renata fez um escalda pés com alecrim e usou óleo essencial de menta pra auxiliar a elevar a pressão arterial. Pedi um cobertor para cobrir as pernas e meias nos pés. Quando comecei a me movimentar não me esqueci da sequência das respirações e de relaxar. Recebi massagem na lombar o que aliviou consideravelmente o desconforto e me alimentei e bebi água sempre que me ofereciam algo. Chocolate, castanha, biscoito salgado com queijo, suco de laranja e até soro caseiro para manter a pressão normal e a energia para o trabalho de parto. Dancei com meu esposo, rebolei na bola suíça, me agachei de cócoras e assim o trabalho progrediu. Já era mais de meio dia quando a parteira fez outro toque e estava com 9 cm de dilatação e o bebê já estava baixo. Senti-me ótima, tranquila e confiante. Meu esposo encheu a piscina com o próprio fôlego e enquanto meu padrasto colocava água pra esquentar no fogão a lenha, ele começou a encher com uma mangueira ligada ao chuveiro quente. Quando percebi que a piscina estava pronta senti vontade de entrar. Olhei para a banqueta de parto no canto da sala e me lembrei dos dois partos anteriores. Não senti vontade de usá-la desta vez. Entrei na piscina e tive a melhor sensação do mundo. Pensei: se eu soubesse que era bom assim, teria usado a piscina em todos os partos. Que delícia! A água morna me fez ficar ainda mais relaxada e por consequência percebi também que as contrações demoraram um pouco mais a virem. Não me preocupei. Quando elas chegavam a Renata sabia exatamente o que fazer. Pressionava e massageava na medida certa como que lendo meus pensamentos. Eu me sentia muito bem mesmo. As pernas começaram a formigar e a Lorena aferiu novamente a pressão e auscultou o coração do João Lucas. Chegou então a última hora do trabalho de parto. Vi meu esposo se movimentando para manter a água quente e tudo funcionando conforme o planejado. Pensei na minha mãe e logo a vi, sentada na cadeira de fio de frente para a piscina. Eu estava nas melhores companhias, meu filho podia vir que estávamos todos preparados. Senti os primeiros puxos e estava apoiada na borda da piscina de frente. Senti que o corpo dele estava descendo pelo canal do parto. Quando senti a cabecinha coroando eu avisei a equipe e elas me pediram pra mudar a posição para facilitar a recepção. Senti um puxo, uma vontade de fazer força e percebi que algo havia saído a jato pelo canal do parto. Era a bolsa que havia se rompido e parte do líquido saiu. Elas chamaram meu esposo que estava providenciando a água quente. Virei de barriga pra cima, semisentada e apoiada na borda da piscina. Muita calma nessa hora! A doula me lembrou de respirar e eu me lembrei de pedir aquele auxílio valioso da Virgem Mãe Santíssima. Fiz uma oração que foi meu mantra no primeiro parto e muito útil também no segundo. Dessa vez a fiz apenas uma vez na hora mais necessitada. “Me encontrei com a Virgem Maria, sentada numa pedra fria. Assistindo, o parto comigo e com meu filho”. Assim senti Sua presença me iluminando o caminho e com ela a força das minhas ancestrais. Conversei com o João Lucas e ele me ouviu. Coloquei em prática a parte final do treinamento, quando se sente vontade de empurrar, no entanto foi necessário muito autocontrole para não fazer força no lugar e momento errado. Respirei, vocalizei longamente enquanto pressionava o diafragma empurrando o tronco pra frente e o fundo do útero para auxiliar no puxo sem contrair o períneo. Percebi alguma tensão no começo, senti que precisava relaxar mais o períneo. No próximo puxo me concentrei melhor. Senti ele deslizando para sair toda cabeça e fiquei concentrada. Senti que alguém colocou a mão pra amparar a cabecinha dele debaixo d’água. Era meu esposo que já estava posicionado. Vi minha mãe na minha frente e veio mais um puxo. Dessa vez senti uma contração bem demorada e o corpo deslizou suavemente para fora. Meu esposo o recepcionou com o suporte da parteira. Durante os puxos eu não senti dor alguma. Meu corpo estava anestesiado e minha mente silenciada. Focada no presente e no meu corpo em conexão com meu bebê. Quando ele saiu por inteiro meu primeiro impulso foi pegá-lo e trazê-lo de encontro ao meu peito. Ele chorou vigorosamente nos meus braços e eu senti uma forte emoção. Não chorei porque a força era ainda maior que a emoção. Eu estava em êxtase naquele momento. Sentindo a completude e a realização de tudo que vivenciamos. Ele ficou ainda alguns minutos no meu colo até que começamos a preparação para a saída da placenta.

A dequitação

Eu estava bem satisfeita com tudo que vivenciamos, mas ainda não era tudo. Restava a dequitação da placenta que nos partos anteriores havia sido um pouco demorada e me causava alguma preocupação por causa do histórico de pressão baixa e desmaio no primeiro parto e de tontura seguida de administração de soro e de ocitocina intravenosa no segundo para evitar hemorragia, o que me causou cinco dias de cólicas fortes. Eu estava apreensiva. A equipe me conduziu a sentir gratidão e me despedir com amor daquele órgão que nutriu meu bebê durante toda a gestação e que agora precisava sair, pois havia cumprido sua missão. Eu mentalizei e me conectei com a placenta enviando a ela minha gratidão e meu amor por ter cumprido uma função vital que ligava meu filho a mim através de minhas entranhas. Então saí da piscina enquanto o papai segurava o João Lucas e me deitei no colchão preparado ao lado. Fiquei ali sentido as cólicas das contrações por alguns minutos com o João no colo do papai. Ele teve seu primeiro contato com minha mama antes da placenta sair, mas não quis mamar nesse primeiro momento e fez isso só alguns minutos depois com a dequitação completa. Veio uma contração forte e a placenta não saiu. Eu senti um desconforto por ter que passar por aquilo agora que meu bebê já estava em meus braços. Então pedi que me auxiliassem a ficar numa posição mais vertical, de joelhos para auxiliar a saída dela. Com auxílio me coloquei na posição e ela veio junto com uma contração intensa e duradoura. Saiu inteira, banhada de sangue dos pequenos vasos sanguíneos que nos ligava um ao outro e eu agradeci novamente. A Lorena a examinou e, eu pedi para a Renata fazer o carimbo dela como uma lembrança. Elas trouxeram a placenta perto de mim para que eu a visse dos dois lados, o lado que fica de frente para o bebê no útero e o lado que se liga

a parede uterina. Linda, grande e com perfume próprio ela foi guardada para que a Lorena fizesse suco de parte dela no mesmo dia e nos dias posteriores que eu bebi com gratidão e me senti revigorada. Depois ela foi colocada no freezer para decidirmos onde plantá-la e que árvore plantar em cima dela. As sementes de Baobá estavam aguardando esse momento. Permaneci deitada depois da dequitação, com o João Lucas nos braços mamando e dormindo.

O sono dos filhos me dá uma sensação de paz indescritível. Saber que eles estão ali comigo, com saúde e sob a minha guarda e segurança me fazem sentir essa serenidade. Conversei mais alguns minutos com a equipe e depois fizemos uma tentativa de me levantar para tomar um banho. Como eu fiquei tonta, resolvemos que o banho seria dado em mim por elas mesmas no colchão com toalhas molhadas. E assim elas fizeram com todo carinho e atenção, trocando o lençol e me limpando com cuidado. Recebi massagem nos pés e mais uma vez senti como a doula faz parte e completa a equipe com sua arte e seu amor. Durante todo o tempo eu me senti uma rainha, a dona do parto. Eu fui bem atendida em todas as minhas necessidades, bem cuidada sob a competência e dedicação de uma parteira fabulosa e uma doula totalmente entregue ao trabalho e conectada a mim. Meu esposo, minha mãe e meu padrasto tiveram também participação fundamental com seu apoio físico, emocional e espiritual. O João Lucas foi pesado e medido e voltou para os meus braços. Não consegui dormir, mas descansei o quanto pude. As crianças chegaram ao final da tarde e vieram conhecer o irmão mais novo. Mariana ficou emocionada e encantada, Waidê reconheceu o João e logo relembrou a parceria no compartilhar o mamá. Começava ali uma nova dinâmica familiar, um período de adaptação e de inclusão, de integração e de muito amor.




Crédito das fotos da Franciella Cavalheri


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