Porque não devemos dar doces a crianças?


Olá, estamos de volta com mais um artigo. Dessa vez vamos falar sobre um assunto bem polêmico: porque não devemos dar doces às crianças? Sempre tem alguém para dizer coitadinha, ela está com vontade, é só uma balinha! Esse pensamento é muito prejudicial à saúde das crianças, e eu vou te explicar o porquê, vem comigo.


O desenvolvimento infantil é um processo que se inicia ainda no útero materno. Com isso, os alimentos que a mãe consome possuem elementos que vão ajudando a constituir o desenvolvimento do paladar infantil, e esse aprendizado continua durante o aleitamento materno. Através do leite materno, a criança também entra em contato com as referências que ajudam a moldar seus hábitos alimentares, além de receber nutrientes. Uma alimentação adequada e saudável deve ser feita com “comida de verdade” e começa com o aleitamento materno, como já falamos em um artigo anterior, ele deve ser exclusivo até 6 meses de vida e a partir daí deve ser complementado com alimentos in natura e minimamente processados, além do leite materno.


Os dois primeiros anos são muito importantes, pois representam um período intenso de desenvolvimento de todo o sistema nervoso e cognitivo. É o período em que a criança está moldando uma série de aspectos do seu desenvolvimento, e o paladar está incluso nisso.


Por esse motivo, os estímulos oferecidos nesse momento da vida são importantes para as escolhas que a pessoa vai ter no futuro. A criança já tem preferência pelo sabor doce desde o nascimento, se ela for acostumada com preparações adoçadas poderá ter dificuldade em aceitar verduras, legumes e outros alimentos que despertam outros sabores e sensações no paladar, como o amargo, o azedo ou até mesmo o doce natural dos alimentos in natura.


Entre os 6 meses e 2 anos não é indicado oferecer às crianças frutas, bebidas ou qualquer preparação (bolos, biscoitos, pães…) adoçadas com qualquer tipo de açúcar, adoçante ou mel. Dessa forma alimentos ultra processados também não devem ser ofertados, pois possuem grande quantidade de açúcar em sua composição, como: achocolatados, cereais matinais, gelatina, mingaus instantâneos, preparados com farinhas de cereais, iogurte com sabores e tipo petit suisse, guloseimas, balas, chocolates, biscoitos, bolachas e doces.


Aqui vale uma ressalva em relação ao mel, embora seja um produto natural, o mel também não deve ser utilizado na alimentação das crianças, por conter os mesmos componentes do açúcar. Além disso, há risco de contaminação por uma bactéria associada ao botulismo. A criança menor de 1 ano é menos resistente ao micro-organismo, podendo desenvolver essa grave doença, que causa sintomas gastrintestinais e neurológicos.


Alguns desses alimentos citados podem ter uma identidade visual repleta de elementos que remetem ao bom crescimento e desenvolvimento na infância, o que pode induzir os pais e cuidadores a acharem que são alimentos saudáveis, mas não são. Sendo assim, uma alimentação adequada e saudável contribui para a saúde infantil, ou seja, para que as crianças cresçam e se desenvolvam em todo seu potencial. Isso é muito importante durante a infância, e é crucial nos dois primeiros anos de vida. A prevalência de obesidade infantil cresce a cada ano no Brasil, sendo fundamental evitar o ganho de peso desnecessário, com consequente desenvolvimento na fase adulta de doenças crônicas relacionadas à obesidade.


Além disso, alimentos ricos em açúcar, seja o de adição ou o que está presente nos ultras processados, apresentam uma composição nutricional desbalanceada e um maior teor energético, caracterizando um padrão alimentar de baixa qualidade nutricional que pode levar ao ganho de peso excessivo, ao surgimento de placa bacteriana e cárie nos dentes, além de outras doenças associadas. Por último, mas não menos importante a presença dos sabores doces na infância contribui para a constituição de um paladar que pede mais açúcar depois.


Deve-se ter um certo cuidado em relação aos sucos mesmo quando são naturais, pois ao se preparar um suco perde-se muitas fibras das frutas. Além disso, mastigar é um processo importante para a criança, pois ajuda no desenvolvimento da musculatura do rosto. Outro ponto é que os sucos ajudam a criar na criança o aprendizado de tomar líquido com sabor, sendo que água é que deve ser escolhida como a bebida ideal para matar a sede. Portanto, os pais devem sempre preferir oferecer a fruta e água para beber. Se for dar suco, a melhor opção é o natural da fruta e sem açúcar, em pequena quantidade, no máximo um copo pequeno de 120 mL ao dia como parte de uma refeição, de preferência em um lanche, e nunca nos intervalos.


O mais importante é entender que não precisamos comer açúcar. Ficamos achando que a criança está sofrendo por não comer açúcar, mas é porque já estamos acostumados a um sabor muito doce. A criança pode ter uma alimentação super variada em termos de estímulos sensoriais de cores, sabores e texturas sem esse sabor doce. Tratamos esse assunto como se a criança estivesse vivendo a privação de uma coisa que é muito fundamental, e não é assim.


Um hábito que deve ser estimulado é o ato de ler os rótulos dos alimentos. Eles trazem várias informações: a lista de ingredientes, o fabricante, o prazo de validade, o lote, a quantidade contida na embalagem e a informação nutricional. A lista de ingredientes é feita em ordem decrescente de quantidade, ou seja, o primeiro ingrediente da lista é o que está em maior quantidade no produto e o último ingrediente é o que está em menor quantidade. Se o produto tiver cinco ou mais ingredientes e se existirem ingredientes com nomes estranhos, pouco conhecidos ou que nunca usamos em casa, é muito provável que o produto seja ultra processado.


Após os 2 anos de idade a ideia não é proibir nem liberar geral o consumo de doces, mas consumir com moderação. A recomendação atual é de 25g ao dia, ou seis colheres de chá.


Parece muito, mas esse valor considera todo o açúcar adicionado em sucos e tantos outros alimentos que costumam estar na lancheira. Um achocolatado já bate esta meta, e uma lata de refrigerante chega a ter 35g. Para se ter ideia, nos Estados Unidos estima-se que as crianças comam até 80g de açúcar.


É comum haver ansiedade e até pressão de familiares e amigos para que os alimentos até então não oferecidos passem a fazer parte da alimentação cotidiana da criança. Muitos alimentos, como os doces das festas e os refrigerantes, aparecerão no dia a dia da criança, mas o cuidado deve ser mantido, evitando-se o consumo de alimentos não saudáveis, de forma a favorecer o crescimento e o desenvolvimento adequados. O cuidado com a alimentação da criança continua sendo uma tarefa coletiva e compartilhada com os familiares, escola e outros espaços de convívio da criança.



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