Toque de Recolher


Já era hora de voltar para casa, passar portão adentro e perceber o que antes não havia tempo para se ver. Quantas coisas já existiam e eram invisíveis aos meus olhos, porque eu não me permitia olhar com mais atenção seus detalhes. Qual a cor das paredes? como estão os móveis algumas lasquinhas do tempo, mas que ainda me servem tão bem?

E dessas coisas de que sinto tanta falta, surge uma faísca, um querer… Surge aquela criança a fim de descobrir todas as cores, matizes e tons que o mundo incolor não pode ofertar. Nasce, em mim, na casa do meu coração, o querer de renovar todos os cantinhos esquecidos e acumulando poeira. Reformar gavetas que só eram abertas para guardar algo que nem lembro mais o que era. Sou quase uma visitante em algumas portas que abro, quem precisa de um armário tão grande e tão cheio de nada? Será que realmente preciso de tudo que guardo?

Ao toque de recolher, quem me acolhe? Quem me acolhe é este lar nem sempre lembrado, nem sempre amado, nem sempre cuidado e admirado. Ainda assim, é ele que me acolhe, que me guarda, me conforta e me surpreende com toda a sua capacidade de servir. E devo dar a ele o que merece. Devo me doar, para além do serviço, também em arte e forma e brilho e cor. Por que não? Quem disse que gente grande não pode pintar e se expressar? Se a liberdade do mundo está selada, eu vou abrir a minha liberdade pessoal e gritar todo meu amor em forma de cor.

Ao toque de recolher, quem me acolhe? Este meu corpo: é ele que me atende, cheio de marcas, vivências, algumas vezes mal-amado e malcuidado, mas que ainda assim me acolhe, me guarnece, me conforta e me surpreende com toda a sua capacidade de servir e de amar, de Me amar.

É hora de voltar para casa, adentrar o meu Eu, olhar o que antes não havia tempo de se ver: coisas dentro de mim que eram invisíveis aos meus olhos, porque não olhava com atenção aos detalhes. Habilidades esquecidas, acumulando poeira. Mas eu posso revivê-las!

Dê-me uma tela e algo com que pintar, me dê carvão, tinta, grafite! E até pedaços de pano me servem, pois eu não vou deixar mágoas, rancores e ressentimentos, me tornarem fria, amarga e triste… Eu nasci pra vencer e vou renascer em forma de novas belezas que eu mesma ainda não sei…! Quais as minhas maiores fraquezas e quais as minhas maravilhosas virtudes? Por que sou assim? Quantos sonhos esquecidos, quantos valores joguei nas gavetas do meu ser, ignorando que eles existiam, para me fazer parte da máquina consumista e irremediavelmente insatisfeita. Quem verdadeiramente sou?

Eu sou filha de alguém. Eu sou o efeito de um grande amor que nasceu há muitas e muitas gerações atrás, e sendo o efeito, eu também posso causar. Posso causar no mundo um movimento de amor e, principalmente, de Fé!

Ingrediente tão necessário no tempo que vivemos, a Fé: Fé na vida, Fé em mim, Fé no que virá! Pois vou pintar e desenhar e sonhar com aquilo que eu verdadeiramente anseio viver…! Por isso coloco nesta mandala de fé e de sonhos toda minha esperança, planto meu coração-semente para que meu amor possa florir e frutificar muito além dos limites das minhas retinas. Mandalas são uma arte do despertar um maravilhoso caminho de volta para casa, de reconexão com o Sagrado. Então eu me reconecto comigo e com o mundo.

Ao toque de recolher, aparece um medo, um vazio… Estou em minha própria companhia…

Ao toque de recolher eu medito.

Volto para dentro de mim.

Vou até meu mais profundo eu.

Observo.

Observo o entra e sai de pensamentos: vozes, memórias, vivências e sentimentos! Imagens vêm e vão, eu respirando profundamente devagar… e respirando novamente, num ritmo leve, lento e profundo.

Com o tempo, percebo que tudo se acalma e já não sinto medo, porque percebo que estar só, na verdade, é reconhecer que não se está realmente só. Observo uma luz em mim e posso senti-la, vê-la iluminar o porão do meu eu, então me vejo ainda mais e melhor: na minha sombra e na minha Luz me sentindo plena.

Ao toque de recolher compreendo a mensagem Divina, me dizendo "Volta para casa, Me reencontre em ti, se fortaleça em Mim e recomece". Ao toque de recolher...

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses

– Sócrates

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