Uma leitura para libertar o pássaro preso na gaiola

Atualizado: 20 de Mar de 2020



No livro “O que o sol faz com as flores”, a escritora Rupi Kaur escreve: “Me levanto/ sobre o sacrifício de um milhão de mulheres que vieram antes/ e penso/ o que é que eu faço/ para tornar essa montanha mais alta/ para que as mulheres que vierem depois de mim/ possam ver além”. Quando leio isso, é inevitável pensar no que eu, enquanto mulher, faço para auxiliar outras mulheres nessa jornada.

Pensar nisso também remete à importância de difundir as histórias de mulheres que tanto fizeram, que tanto lutaram para que outras pessoas pudessem ver além. Uma dessas mulheres é Maya Angelou. Escritora, poetisa, atriz, dançarina, ativista... Maya foi uma mulher negra que não se calou diante dos absurdos da segregação racial nos Estados Unidos.

Na autobiografia “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola” é possível conhecer um pouco da infância e adolescência da escritora. Marguerite (verdadeiro nome de Maya) e seu irmão, Bailey Johnson Jr., moravam em Long Beach, na Califórnia. Com a separação dos pais, eles são mandados à cidade de Stamps, Arkansas, para morar com a avó paterna, Annie Henderson. Quando chegaram ao local, no início da década de 1930, a menina tinha três anos e o irmão, quatro anos.

A avó Annie era dona de um mercado na região “negra” da cidade de Stamps. Nos primeiros capítulos do livro, Maya faz relatos sobre o cotidiano dela e do irmão na nova cidade. Os acontecimentos geralmente tinham como pano de fundo o mercado da “momma Annie”, frequentado especialmente por trabalhadores negros. Em alguns trechos, Maya destaca a relação afetiva que ela desenvolveu com o local.

“Até eu ter treze anos e ir embora do Arkansas de vez, o Mercado era meu lugar favorito. Sozinho e vazio durante a manhã, parecia um presente fechado dado por um estranho. Abrir as portas da frente era soltar a fita de um presente inesperado”. (p. 31)

Os relatos de Maya a respeito dos primeiros anos dela em Stamps mostram como a segregação racial se estruturava na cidade. Segundo ela, a situação era tão absurda que a maioria das crianças negras não tinha a menor ideia de como os brancos eram. Isso era fortalecido pelo fato da cidade ser dividida em lado negro e lado branco. O preconceito no local era tamanho que alguns costumavam dizer que os negros não podiam sequer comprar sorvete de baunilha, a não ser no quatro de julho, e tinham que se satisfazer com chocolate.

Aos sete anos, Maya e o irmão vão morar com a mãe em Saint Louis, uma cidade do Missouri. O período vivido no local deixaria marcas com as quais Marguerite precisaria conviver por toda a vida. Na casa da mãe, a menina sofre uma série de abusos sexuais por parte do padrasto, o senhor Freeman. A estranheza, dor e opressão que os abusos provocam na garota ficam evidentes em trechos como esse: “E aí veio a dor. Uma invasão indesejada em que até os sentidos são destruídos. O ato de estupro em um corpo de oito anos é questão da agulha deixar o camelo passar pelo seu buraco por não ter outra opção. A criança cede porque o corpo pode e a mente do violador não consegue”. (p. 100)

A narrativa de Maya, como ela própria faz questão de enfatizar em vários momentos do livro, mostra o processo de empoderamento de alguém que se sentia sem controle sobre a própria vida, fadada a um destino que havia sido traçado para ela. Maya se indignava ao perceber que, no colégio dos brancos, os alunos eram ensinados para serem cientistas (recebendo estrutura e oportunidade para isso), enquanto ela e os outros alunos do colégio dos negros teriam que ser Jesse Owens (importante atleta americano).

Nada contra Jesse! Muito pelo contrário! O problema era outro: crianças e jovens brancos tinham um leque de oportunidades a sua frente, poderiam ser o que quisessem, inclusive atletas, como o grande Jesse. Para Maya e seus colegas da Lafayatte County Training School (a escola dos negros) a realidade era diferente, as oportunidades eram muito limitadas, por mais que eles se esforçassem.

Influenciada especialmente pela força de mulheres, como a avó Annie Henderson, Maya tornou-se uma importante voz na luta contra o racismo e todas as formas de discriminação. Por meio da literatura e outras artes, ela deixou um legado que inspira, promove a reflexão e pode ser sentido ao ler o poema “Still I rise”, que compartilho aqui (traduzido).


Ainda assim me levanto (Maya Angelou)

Você pode me inscrever na história

Com as mentiras amargas que contar

Você pode me arrastar no pó,

Ainda assim, como pó, vou me levantar

Minha elegância o perturba?

Por que você afunda no pesar?

Por que eu caminho como se eu tivesse

Petróleo jorrando na sala de estar

Assim como a lua ou o sol

Com a certeza das ondas no mar

Como se ergue a esperança

Ainda assim, vou me levantar

Você queria me ver abatida?

Cabeça baixa, olhar caído,

Ombros curvados como lágrimas,

Com a alma a gritar enfraquecida?

Minha altivez o ofende?

Não leve isso tão a mal

Só porque eu rio como se tivesse

Minas de ouro no quintal

Você pode me fuzilar com palavras

E me retalhar com seu olhar

Pode me matar com seu ódio

Ainda assim, como ar, vou me levantar

Minha sensualidade o agita

E você, surpreso, se admira

Ao me ver dançar como se tivesse

Diamantes na altura da virilha?

Das choças dessa história escandalosa

Eu me levanto

De um passado que se ancora doloroso

Eu me levanto

Sou um oceano negro, vasto e irrequieto

Indo e vindo contra as marés eu me elevo

Esquecendo noites de terror e medo

Eu me levanto

Numa luz incomumente clara de manhã cedo

Eu me levanto

Trazendo os dons dos meus antepassados

Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos

Eu me levanto

Eu me levanto

Eu me levanto

Dica: Para quem quiser conhecer mais a respeito da Maya Angelou, o documentário “And still I rise” está disponível na Netflix. Vale a pena assistir!














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