Uma Maria, filha de Maria


Meu nome é Maria do Carmo Venâncio Irigaray, sou filha de Francisco de Assis Venâncio e Maria Aparecida Venâncio, nascida em São Paulo-SP. no dia 21/07/1963.


Sou a caçula de 7 filhos e até os seis anos eu me considerava a criança mais feliz do mundo. Meus pais e irmãos eram bem amorosos comigo, sentia-me o centro das atenções e todos tentavam de alguma forma me dizer o quanto eu era uma pessoa amada.


Embora meu pai tivesse um emprego modesto de bombeiro, sentia que vivíamos em abundância. Comíamos bem, éramos felizes com o que tínhamos. Nunca ouvia ninguém reclamando que estava faltando algo em casa. As minhas tardes eram todas cheias de alegria, amor e aconchego, pois meu pai regressava do trabalho e sua presença iluminava nosso lar e principalmente meu coração de criança. Meu pai era habilidoso, criativo e construiu várias pernas de pau. Aos domingos, quando ficávamos em casa, ele fazia todos apostarem corrida em cima das pernas de pau. Além disso, ele brincava comigo de casinha, fazia panelinhas de barro (eram lindas) e tenho gravado na memória as nossas risadas que ainda ecoam aqui dentro de mim. Boas lembranças que preencheram minha infância até os sete anos, quando tudo mudou.


Uma dor profunda e as mudanças difíceis

Um dia meu pai saiu para o trabalho e não voltou. Soube que ele havia apagado um incêndio na Fábrica Matarazzo e depois tinha sido hospitalizado, onde permaneceu durante 19 dias no hospital. Foi quando descobriram que ele havia contraído doença de Chagas (possivelmente em sua juventude), a qual havia atingido o seu coração, ocasionando um ataque cardíaco fulminante aos 44 anos.


Essa perda inesperada, transformou minha vida de forma radical. A infância feliz se tornou um pesadelo. Minhas tardes já não eram iluminadas e alegres, eu já não sorria mais. Minha mãe chorava o dia todo e à noite. Aquela pessoa meiga e amorosa se transformou em uma mulher que eu não conseguia mais reconhecer, percebi que a dor lhe deixou com a irritabilidade à flor da pele. Nada do que eu fizesse estava bom. A mãe carinhosa se transformou em uma mulher triste, amarga e agressiva. Os carinhos que eu recebia até então foram substituídos por surras cujos motivos eu não conseguia entender. Tudo aquilo foi me deixando muitas marcas, no corpo e na alma.


Aos 18 anos decidi sair de casa e seguir adiante. Aos 21 anos, já independente, voltei a morar com minha mãe, atendendo um pedido dela. Hoje, com 91 anos, vive conosco e tenho por ela reconhecimento. Todos os pais fazem o melhor que podem pelos seus filhos e ela fez o melhor que podia por mim. A ela sou grata. Hoje cresci e o que me faltou quando pequena, eu busco por mim mesma, em honra e homenagem aos meus pais.


Amor à primeira vista

Conheci meu esposo Teodoro na casa de um amigo chamado Raimundo, que morava com as suas irmãs no bairro da Pompeia (São Paulo-SP). Meu marido, mato-grossense de Alto

Araguaia, residia em Cuiabá e estava chegando, em viagem de férias. Ao me ver pela primeira vez ele disse que me reconheceu imediatamente como a mulher de sua vida. Nesse primeiro encontro, fiquei contente em conhecê-lo, pois seu jeito bem humorado, descontraído e alegre de ser me chamou muito a atenção e me fez dar boas risadas. Jamais conseguiria me casar com um homem mau humorado.


Nos reencontramos depois de um ano. E tudo estava tomado por um clima de atração mútua. Adorei o seu beijo e tudo mais que nos envolveu naquele momento. Então, eu vim à Cuiabá, a convite dele, que me pediu em casamento em Chapada dos Guimarães. Aceitei o pedido e me mudei para Cuiabá com 23 anos. Vivemos uma grande paixão nos primeiros três anos. Depois começaram as dificuldades... não foram tantas, mas o que segurou o nosso relacionamento foi o compromisso que tínhamos um com o outro. Por mais difícil que tenham sido alguns desses momentos, escolhemos construir esse amor e lutamos pra que esse sentimento prevalecesse. Aqui estamos. No dia 24 de outubro de 2020, festejaremos 34 anos desse relacionamento que se iniciou com um amor à primeira vista e hoje tem uma qualidade muito melhor do que os primeiros anos de convivência, com mais maturidade e amor.


Filhos: se não os tê-los como sabê-lo

Quando nos casamos Teodoro já tinha uma filha, Maíra, que aos 6 anos veio morar conosco.

Desde então tive 3 abortos espontâneos e já tínhamos pensado numa adoção, quando encontrei João, com 6 meses de idade. Achamos que estava bom assim, mas inesperadamente chegou Érica, com 8 anos, que conquistou nossos corações. Sua mãe havia morrido e estava precisando ser acolhida por alguém, e ela chegou pra ficar. Depois de alguns anos que se passaram, conhecemos Márcio, ainda jovem, em Florianópolis e ele pediu que queria morar conosco. Ficou um tempo, regressou a Florianópolis e alguns anos depois voltou novamente a morar conosco e saiu quando se casou com Débora.


Depois de 16 anos de casados engravidei e em 2003 recebemos um presente de Deus com a chegada de Samuel.


Hoje podemos dizer que temos cinco filhos, Maíra (38 anos), Marcio (38 anos), Érica (33 anos), João (28 anos) e Samuel (17 anos), os três primeiros casados, já nos deram 7 netinhos.


Mas na verdade temos muitos filhos do coração e assim também muitos netinhos que nos consideram avós do coração.


Sempre acolhemos os amigos de nossos filhos em casa, dos quais alguns se tornaram nossos afilhados, outros nos consideram como pais do coração e muitos netinhos que nasceram dessas boas amizades. Cinco deles nasceram em nossa casa (parto domiciliar).

Me sinto muito abençoada pela família que temos.


Uma longa formação

Eu sou psicóloga e Consteladora familiar. Uma prolongada formação em psicologia que só conclui depois que já havia criado todos os nossos filhos. Samuel, o caçula, estava com 10 anos. Considero que foi muito importante ter acompanhado cada um deles bem de pertinho. Fortaleceu nossos vínculos, através da atenção e do amor. Temos uma ligação tão forte que só de ouvi-los falar, percebo pela voz se estão passando por alguma dificuldade ou estão bem. Isso não tem preço. Sei que tenho a confiança e o respeito deles.


No segundo ano de faculdade fiquei grávida do Samuel, com 38 anos, e por recomendação médica deveria ficar sem dirigir e sem subir escadas. Na época minha sala de aula era no segundo andar de um prédio sem elevador. Não tive dúvida em interromper o curso.


Quando Samuel já estava com dois anos e meio decidi retomar o estudo. Um semestre antes da formatura meu marido recebeu um convite da Universidade da Flórida para fazer um pós-doutorado, não tive dúvida em trancar novamente o curso para acompanhá-lo com a família. Ao regressar ao Brasil comecei a fazer uma formação em Constelação Familiar e decidi ir a Alemanha conhecer Bert Hellinger, o precursor das constelações, aprofundando minha formação.


Fiquei mais alguns anos sem terminar o curso de psicologia, até que resolvi voltar. Depois de 10 anos, entre idas e vindas, finalmente me formei. Foi pra mim uma grande vitória. À época já estava trabalhando com constelações, o que me possibilitou um crescimento tanto pessoal como profissional. Eu amo o que faço. Muitas transformações ocorreram em minha vida, desde então. Tenho certeza de que tudo que vivenciei com meus filhos, todos os cuidados, todo o zelo que tive com eles foram importantes para minha formação. Todos eles são pessoas diferentes com personalidades distintas e fortes, que me ensinaram muito. Essa foi a minha maior formação, comparável a um PhD em família (risos)!


Vencendo dificuldades

Graças ao bom Deus e a genética que herdei, sempre tive uma boa saúde, o que foi importante para vencer algumas dificuldades que tive que passar, juntamente com meu marido.


A mais difícil delas foi quando o nosso filho João, que é adotivo, começou a se envolver com drogas. Foram momentos muito difíceis pra mim, pro meu marido e pra nossa família, pois sabemos que a adicção é uma doença e que se a família não se cuidar é sujeito adoecer todos. Então tínhamos que cuidar dele, preservar os outros filhos e ainda lidar com aqueles “amigos” que ficam procurando culpados, se esquecendo que quem tem telhado de vidro não atira pedra no telhado do vizinho.


Porque sabemos que tem coisas que acontecem na vida das pessoas sem que existam culpados... mas existem aqueles que podem apoiar, dar a mão e ombrear. Não são muitas as pessoas que estendem as mãos em momentos como esse, porque encontram dificuldades em lidar com o diferente e preferem excluir aqueles que não estão andando segundo suas crenças e padrões morais.


Graças a Deus temos amigos e grandes profissionais que apoiaram a mim e nosso filho nessa busca por uma melhora. Uma das pessoas por quem tenho gratidão, respeito e admiração como profissional é Dulce Figueiredo. Ela foi a primeira pessoa a me aconselhar a fazer uma Constelação Familiar e depois me indicou um lugar para que fizesse a formação nessa área. Tenho muita gratidão por esse conselho que abriu essa porta para mim e trouxe um alívio pra nossa família. Compreendemos muitas coisas, o que deixou a mim e o meu marido mais leve, o João também encontrou mais equilíbrio e segue a cada dia se transformando e tendo mais consciência de onde veio e onde quer chegar.


Lições aprendidas

O tempo ensina e nos momentos de dor podemos aprender algumas lições e fazer algumas mudanças internas, mas ninguém muda ninguém, a menos que a outra pessoa deseje mudar a si mesma. Mesmo que seja seu filho biológico ou do coração. Cada um faz o seu próprio caminhar e a vida é um grande movimento sempre nos levando adiante. Tudo o que passei, todas as tristezas e alegrias que vivi, todas as coisas ruins e boas que vivenciei fizeram e fazem parte da minha formação como profissional e, principalmente, como pessoa.


Tudo foi necessário e tudo aconteceu como tinha que acontecer. Com gratidão a vida foi preservada e eu estou aqui, com aprendizados e muitas histórias pra contar.


Às pessoas que estão lendo este relato, aconselho que deixem o passado no passado, porque este você não pode transformar, ele já se foi. Viva o presente pois é através dele que você constrói seu futuro. As dificuldades existem e fazem parte da vida. Temos força para vencê-las e viver a cada dia intensamente, com alegria, como se fosse o único.

Por Maria Irigaray



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