Baby Blues


Queridas leitoras, iniciamos o mês de setembro com energias renovadas e trazendo um assunto de importância real e significativa que deve ser considerada o ano todo. Estou falando de autocuidado, de dar prioridade para sua saúde mental e emocional especialmente no pós parto.


Este que é um período tão especial quanto a gestação e que a mãe se encontra tão aberta de corpo e alma depois de ter passado pelo portal transformador e sagrado do nascimento de si mesma, como mãe, e do seu bebê.


Em meu trabalho eu me deparei algumas vezes com situações delicadas vividas pelas mulheres no pós parto que são muito comuns, embora não se fale disso com frequência.


O baby blues é causado pela mudança abrupta de hormônios que estavam em alta produção para o parto e diminuem radicalmente depois do nascimento do bebê. Além disso as emoções devem ser consideradas no contexto de uma mãe que nasce e também do pai. Sim, o pai passa por transformações na vida familiar que merecem um olhar acolhedor de compreensão nessa nova fase. Não é porque ele não sente as mudanças no próprio corpo de forma tão intensa quanto a mulher que não precise cuidar da saúde emocional e mental.


Sabemos que na vida do casal a chegada de um novo ser é cheia de novidades e nem sempre estamos preparados psicologicamente para nos adaptarmos a elas de forma saudável.


O baby blues por exemplo está relacionado com o sentimento de culpa por parte da mãe que não compreende esse sentimento de tristeza involuntária nesse que "deveria" ser o momento mais bonito e feliz de sua vida. Esse "dever" de alegria, felicidade e bem estar consigo mesma força a barra não é mesmo?


A compreensão das transformações hormonais nesse período que pode durar algumas semanas torna essa realidade mais leve de encarar. Saber que vai passar e ter uma rede de apoio físico e emocional nesse período é fundamental. Então é necessário que as pessoas ao seu redor estejam bem informadas e preparadas para dar esse suporte.


Isso previne que aquela tristeza causada pelas mudanças hormonais não se prolongue pela falta de cuidado e compreensão do contexto, causando transtornos mentais. A prevenção é sempre melhor que remediar!

Aqui em Madagacar, trabalho diariamente com mulheres e vez ou outra alguma delas me chama para auxiliar em situações como: meu bebê não quer mamar, minha filha ganhou neném mas não está bem. As dificuldades da escassez de recursos e de apoio estrutural intensificam a problemática pois muitas delas já sofreram múltiplos abortos ou perderam os filhos pequenos para doenças que poderiam ser evitadas com medidas de saúde básica como saneamento e abastecimento de água potável, coisas que simplesmente não existem aqui.

Culturalmente as puerpéras (mulheres no pós parto) são tratadas com um suporte impressionante da família em geral. Elas passam semanas e até meses dentro de casa, praticamente sentadas ou deitadas enroladas em cobertores (mesmo se estiver calor) e não precisam fazer os serviços de casa, nem cozinhar, nem limpar, alguns cuidados do bebê são delegados, ela é tratada como um ser especial.


A avó do bebê, as irmãs e cunhadas cuidam de tudo da vida prática. Isso tem um lado bom que libera a mãe para viver esse tempo de resguardado realmente resguardada. Por outro lado a mulher fica meses isolada da sociedade externa ao seio familiar, sem poder sair de casa, seu corpo se movimenta pouco produzindo ainda menos serotonina e endorfinas, o calor excessivo causa um desconforto que ela culturalmente não está autorizada a aliviar e a figura masculina na família também fica um tanto deslocada em muitos casos, sem saber seu papel nesse momento.


Chega a me dar uma aflição quando chego na casa e vejo aquela mulher sentada no escuro, com a mesma coberta há dias e dias, com aquele olhar ausente e perdido. Ela não está sozinha na casa, mas o ambiente se torna insalubre por outras condições. Ao conversar com ela eu ouço e escuto. Uma escuta ativa é imprescindível para dar algum acolhimento e mostrar um caminho de encontro com as fortalezas dentro de cada mulher. Não sinto pena delas, isso não auxiliaria em nada. Tampouco posso carregar suas dores ou subestimar sua capacidade de superação.


É preciso conhecer e confiar na força da vida que existe em algum lugar lá dentro de cada uma.


Há tanto em tão poucas palavras... dores profundas amarradas e trancadas à força e um pedido de socorro calado no olhar. Às vezes é uma questão de alquimia, equilibrar os elementos, fazer arder a chama, banhar o corpo e a alma, aterrar e soprar para longe a névoa...

Atender mulheres com baby blues que se tornou uma depressão pós parto me fez refletir muito a respeito de como estamos cuidando disso em sociedade, em comunidade atualmente. Quanto da nossa empatia está voltada para esse contexto familiar? Que informações as pessoas têm em geral sobre isso?

O sentimento de solidão é o oposto da solidariedade. Na minha experiência pessoal, vivi isso no meu segundo pós parto, quando morávamos numa casa afastada da cidade na região rural e eu tinha acabado de me mudar para o estado do Mato Grosso do Sul. Esse contexto me levou a sentir solidão por diversas vezes. Eu estava longe de todos os familiares, ou seja, sem rede de apoio, com duas crianças e um companheiro demandando minha atenção. Ele fazia de tudo para cumprir a parte dele, passando por transformações profundas assim como eu e ainda sem entender bem como a vida pode mudar tanto em tão pouco tempo.


Nós precisamos ensinar nossos filhos meninos a compreenderem os ciclos da vida de forma natural e encontrar seu lugar de fortaleza segurança na roda da vida. Eu recebi e percebi essa sustentação no meu companheiro e fiquei feliz de ver o quanto ele se esforçava para aprender o que não pôde aprender na sua formação enquanto homem. Ele foi basicamente todo meu suporte diurno e noturno, cuidando de nós de forma amorosa e dando seu melhor.


Mesmo assim as noites e noites em claro, amamentando de madrugada naquele silêncio onde eu podia ouvir minha voz interna gritando coisas que eu quis calar foram um grande desafio para mim.


Nenhum homem ou mulher é uma ilha, muitas vezes o suporte de pessoas externas ao núcleo familiar pode trazer um novo olhar. Mas era tudo muito novo para nós nessa nova vida, numa nova cidade e muitas adaptações ao mesmo tempo podem sobrecarregar e desgastar. Claro que sobrava pouca energia para cuidar de mim mesma, mas como eu já estava prevenida das consequências dessa situação eu decidi fazer diferente do movimento de me isolar nesse período delicado, o que não auxilia nem a mim nem facilita para as pessoas me auxiliarem.


Eu resolvi buscar o apoio que eu não tinha ao invés de me fechar e tentar me equilibrar sozinha. As pessoas na verdade são receptivas e solidárias quando a gente se abre para receber esse auxílio, mas só descobri isso quando me permiti. Eu pensava: não quero incomodar ninguém com meus problemas. Nesse momento percebi também o quanto de orgulho eu consegui enxergar em mim e fiz um novo movimento de me expôr, falar do que eu sentia sem culpa e tirar um tanto da carga pesada das minhas costas.


É importante saber a quem procurar, com quem compartilhar essa intimidade para receber um apoio efetivo e confiável. No terceiro pós parto, por exemplo, eu vivi uma situação semelhante de contexto e busquei auxílio profissional. Uma doula de pós parto me atendeu e isso fez toda diferença para minha sanidade mental. Ela me deu o acolhimento e a compreensão que eu precisava e ainda me ensinou ferramentas de autocuidado que eu uso pela vida adentro! A gente só sabe o quanto isso é valioso quando se permite buscar e receber.

Espero que vocês tenham gostado da leitura e que levem essas informações para outras pessoas se conscientizarem desse assunto importante que está presente na vida de tantas pessoas. Me conta nos comentários, você já passou por isso?

Até o próximo artigo da coluna Universo feminino pelo mundo!



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