Chegadas e partidas: gestando a mim mesma


Já fazem 9 meses que estou vivendo com minha família no sul da ilha de Madagacar um dos dez países mais pobres do mundo, em Ambovombe, uma das regiões mais carentes do país.


É o período de uma gestação e ainda não sei se estou pronta para nascer, no sentido de deixar esse ventre. Com esse tempo aqui busquei me aproximar das pessoas, conhecer a cultura local e entender o modo de vida das comunidades onde trabalhamos. Não tem sido fácil, é uma experiência dolorosa onde muitas vezes lidamos com a morte cara a cara e também com a vida.


Vejo aqui a fragilidade do ser humano numa expressão muito profunda e também vejo uma força inestimável capaz de romper a racionalidade da ciência. As pessoas expressam uma fé inabalável através de suas crenças e no sentimento coletivo de pertencer a Deus seus destinos.


É uma confiança que toca meu coração e me faz lembrar do povo nordestino da minha terra. Meus avós, minhas raízes, meus ancestrais que demonstraram a mesma fé, o mesmo respeito no tratamento com os mais velhos, o mesmo olhar sobre a vida e sobre o que é mais importante nela.


Há uma semana atrás eu presenciei na porta da minha casa, literalmente, o nascimento de irmãos gêmeos, o 10° e 11° filhos que estavam com apenas sete meses de gestação. O primeiro nasceu com séria dificuldade respiratória e lutou bravamente pela vida por três dias até que Deus o chamou de volta. A família o enterrou com pesar numa noite fria há três dias.


Hoje eu fui até a casa da médica que é minha vizinha, pois a família está hospedada lá enquanto a clínica está lotada de pacientes, para dar um banho no pequeno, minúsculo bebê Valim-bavaka, o décimo primeiro. Foi um banho terapêutico de ofurô que eu aprendi estudando os benefícios desse banho para recém nascidos prematuros. Ele ficou quietinho, bocejou umas três vezes enroladinho no pano dentro daquela água morna, como se ainda estivesse no útero da mãe. Saiu do banho tão relaxado que quase dormia.


Na verdade durante o banho meus dedos massagearam seu corpo pequeno e magro e ele parecia até sonhar. Depois de seco e enrolado na manta, voltou ao colo da mãe que me agradeceu. Como de costume ele foi envolvido em um grosso cobertor junto da mãe que esperava na cama. A família malgaxe cuida muito bem das mães puérperas, com uma rede de apoio que realmente funciona. Claro, que pensei no irmão que não sobreviveu e fiz uma reverência a ele e sua curta história, mas grandiosa missão nessa família.


Amanhã vou atender um convite para estar numa grande celebração malgaxe. É um funeral. Sim, a maior festa da cultura malgaxe é o funeral. A família Atandroy tem seus próprios rituais e costumes em relação a isso, mas em geral para toda a cultura malgaxe, é uma grande e cara celebração. Em verdade há três nomes, três entidades superiores que compõe Deus para os malgaxe. Um é o criador (Zanahary) , o outro (Andriamanitra) é o espírito do Ancestral Rei e o terceiro é o (Razana) o espírito de todos os mortos que pode abençoar os vivos. Em um rito de sacrifício, por exemplo eles precisam chamar esses três nomes de Deus. Há muitos eventos de celebração, agradecimento e de busca por equilíbrio onde são necessários rituais de sacrifício.


O ritual do funeral pode durar meses ou até mesmo anos e tem um grande festejo em homenagem ao falecido(a). Muitos zebus (vacas), outros animais, arroz, feijão, música tradicional, dança tradicional, bebidas e muita gente, muita mesmo. Dependendo da quantidade de pessoas com quem o falecido se relacionava e conhecia a festa tem mais de mil, dois mil, três mil convidados e tem que ter comida para festejar por muitos dias. No evento do enterro a família se reúne após alguns meses e faz "A Celebração". Durante algumas horas há comes e bebes, canto, dança e histórias sobre aquela pessoa. O corpo é embalsamado com formol para aguentar tanto tempo de celebração, claro. Mas quando é um bebê ou uma criança pequena o funeral não dura tanto e nem é feita uma festa assim.


Para um líder da comunidade, a festa é realmente um evento gigantesco. E a cabeça dos zebus, apenas os ossos com o chifre, fica decorando o túmulo demonstrando a riqueza daquela pessoa em vida. Os zebus são sua poupança para a festa do funeral.


O que mais me fez refletir sobre esse costume malgaxe, além da festa impressionante, é que os parentes próximos precisam pagar em dinheiro uma quantia enorme, que muitas e muitas pessoas simplesmente não tem, mas dão um jeito de pegar emprestado e adiantam meses de seus salários para comprar os zebus que precisam para a festa. Os filhos, netos, noras, genros, irmãos, cunhados, cada um precisa pagar um zebu e mais uma quantia em dinheiro. Estamos falando de comunidades que passam necessidade, sem ter o que comer ou dar para seus filhos todos os dias, mas nesse momento do funeral elas precisam dar um jeito de contribuir, ou seriam uma vergonha para a família. O espírito do parente morto os abençoa e a todos que chegam para o funeral também com um presente em dinheiro para contribuir porque estão honrando sua vida, seu corpo que é o próprio Deus.


Assim, eles depositam sua fé de que essas bençãos retornarão para eles um dia e não os deixarão passar necessidade. Quanto mais a pessoa vive, mais filhos, netos e outros parentes a pessoa tem porque as famílias tradicionalmente são muito numerosas.


As mulheres tem sempre muitos filhos enquanto tiverem fertilidade para isso, mesmo que não tenham condições financeiras de sustentá-los e muitas não tem marido, então a avó é quem cuida da filha com seus numerosos filhos, as vezes de pais diferentes. Isso é muito frequentemente nas comunidades que atendemos. Mas é uma realidade muito dura. Por consequência da situação miserável que vivem, centenas de crianças ficam desnutridas e subnutridas se agravando a situação nesse período de inverno quando a colheita não é tão farta, assim como o acesso a água limpa, a abrigo e saúde pública que é praticamente nula.


Acontecem muitos enterros de crianças e muitos funerais de adultos que não resistiram às doenças. As ações das instituições assistenciais nessa época de pandemia fica limitada pois falta recurso para dar suporte a tanta gente e ainda tem os desafios da escassez de produtos no mercado.


Nem por isso podemos desistir e deixar a população desamparada. Também são grandes e numerosos corações fraternos que escutam o chamado e se juntam em apoio às causas humanitárias. Assim os benefícios começam a aparecer na forma de resultados onde instituições como a Fraternidade sem Fronteiras consegue trabalhar por um tempo. Mesmo assim pessoas de regiões cada vez mais distantes chegam todos os dias pedindo auxílio.


É preciso ampliar o suporte em outros lugares, é preciso alcançar as comunidades mais distantes, esquecidas no meio dos desertos de cactos e areia do sul de Madagacar. Na cidade onde moro já tem caso confirmado de Corona e estamos preocupados por conta do modo de vida das pessoas que torna o isolamento quase impossível.


Meu coração está muito apertado hoje por tudo que tenho visto e vivido aqui. Nem sempre eu consigo expressar em palavras todo esse sentimento. Meu apelo é minha voz, minha escrita que pode chegar ao coração das pessoas aí do outro continente para estender suas mãos em auxílio a esses irmãos e a essa causa nobre.


Eu me ofereci para fazer a minha parte aqui com o apoio de todos esses que não podem estar presentes fisicamente para o trabalho humanitário, mas que podem se fazer presentes de inúmeras formas através da vontade genuína de servir.


No mundo todo há pessoas necessitadas, sem dúvida, o auxílio não precisa ter fronteiras, não precisa ter distinção. Se você quiser saber mais e como pode ser útil, acesse o site www.fraternidadesemfronteiras.org.br e se informe, chame seus amigos a conhecerem os projetos, nós precisamos de você.

Escreva nos comentários suas perguntas para os próximos artigos. Será um prazer continuar essa conversa com você.




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